quinta-feira, abril 10, 2008



MÁSCARAS
Por Hildegardes Mello,

(...) As máscaras fascinam Bachelard. Sobre elas escreveu um ensaio em que chama a nossa atenção para o fato de que, antes de existirem como objetos usados para esconder o rosto, as máscaras moram dentro de nós, como entidades de nosso psiquismo.Toda às vezes que olhamos para um rosto e ele nos parece misterioso, lugar onde segredo se esconde, estamos pressupondo que ele não é um rosto, mas uma máscara, uma dissimulação. Isso é sabido de longa data. Está dito na palavra “persona”, que vem do latim "persona”, que quer dizer “máscara de teatro”. O teatro é algo que precisa de um público para existir. Sem público ele não tem sentido. As personas, as máscaras de teatro, portanto, são usadas para o público. O público vai ao teatro para ver a “máscara”, a representação “de um papel”. (...) Há um princípio na medicina homeopática que diz que o semelhante se cura pelo semelhante.Sugiro aos psicodramatistas que o carnaval de Veneza é uma terapia coletiva em que esse princípio homeopático é usado: máscaras se curam com máscaras. Máscaras de papel e tinta para libertar da tirania das máscaras colada em nosso rosto. Fico desconhecido, sem nome. Estou livre do público.Posso deixar que meu eu verdadeiro saia. Mas as máscaras de papel e tinta padecem de grave limitação. Chega sempre na hora em que elas têm de ser tiradas. Carnaval é usar máscaras para tirar a máscara. Mas será possível simplesmente tirar a máscara de carne e osso e sermos nós mesmos, sem nenhum disfarce? A criança sempre horroriza o público. A criança ainda não aprendeu o papel, não usa máscaras, não participa da farsa, não representa. Seu rosto e seu eu são a mesma coisa. A qualquer momento a verdade que não devia ser dita pode ser dita pela sua boca. As máscaras do carnaval podem ser colocadas e tiradas pela própria pessoa. Mas a máscara colada no nosso rosto só pode ser tirada por outra pessoa. Ela só se desprega de nossa pele quando tocada pelo toque do amor.E assim sabemos que estamos amando: quando diante daquela pessoa a máscara cai e voltamos a ser crianças.
(Adaptado) Alves , Rubens, Máscaras in- A festa de Maria3.edCampinas;Speculum, 1998.p65-69

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